Vox Patriae

Janeiro 15 2010

A interioridade é um dos mais importantes desafios que se colocam a Portugal, nos dias de hoje: Os recursos endógenos económicos e culturais são uma imensa mais-valia para um projecto de desenvolvimento equilibrado do país. No entanto, o desinvestimento e o abandono do interior têm diminuído, de forma preocupante, as oportunidades para os habitantes das localidades mais distantes dos pólos urbanos, sendo que os jovens sentem esses problemas, de forma muito especial. Também aqui, o papel das instituições de ensino superior surge como fundamental.

 

Em que medida são as instituições de ensino superior actores neste verdadeiro combate pelo equilíbrio nacional e, dirão alguns, pela igualdade de oportunidades? Eu diria que actuam numa dupla dimensão: numa primeira, podem constituir-se como pólos dinamizadores de economias locais; numa segunda, adaptando instituições a determinadas realidades locais contribui-se para a repovoação do interior e para o seu consequente desenvolvimento.

 

Ora, as instituições de ensino superior, nomeadamente as que se localizam em áreas do interior como os pólos descentralizados de institutos politécnicos, podem ser centros dinamizadores de economias locais. Uma escola tem alunos e este tipo de instituições, normalmente, reúne pessoas de vários pontos do país. Mais pessoas a precisar de estudar e viver num determinado concelho vão ser mais clientes para o comércio local. Para além disso, ninguém duvida que uma escola potencia, com uma massa de alunos dinâmica e um corpo docente pró-activo, um ambiente académico que reunirá um conjunto de oportunidades para todos os elementos da região onde está inserida a instituição.

 

Noutra perspectiva, a adaptação de cursos e respectivos programas às realidades locais, aproximando os estudantes das regiões onde estudam, criam uma forte tripla ligação aluno – escola – local, que pode resultar em novas empresas e serviços, que dinamizam a economia local e podem empregar jovens formados.

 

Aqui chegados, importa realçar o papel que instituições de ensino superior podem desempenhar no reequilíbrio nacional: Mais que desconcentrar escolas superiores ou faculdades para regiões do interior, o que é importante por si, importa adaptar os seus cursos e programas, para criar uma efectiva ligação da instituição e seus alunos à realidade; Mais que subsidiar empreendimentos megalómanos, importa dotar os jovens dos instrumentos necessários a um espírito empreendedor que se centre nas oportunidades que o interior apresenta; Mais que subsidiar jovens que habitem nos concelhos mais envelhecidos, importa criar condições para que possam desenvolver a sua actividade profissional.

 

A interioridade é uma condição inalterável e se, por um lado, a distância dos pólos urbanos pode constituir uma dificuldade, os recursos e oportunidades que apresentam as regiões do interior são bons motivos para um investimento efectivo nestas áreas tão injustamente esquecidas pelos nossos governantes. Neste sentido, também as instituições de ensino superior têm um importante papel a desempenhar, nos termos que tentei explorar, em cima. É um problema estrutural que exige respostas globais, é certo; esperemos que a Academia não seja esquecida na procura da solução.

 

Publicado em RGA - Expresso Online

publicado por André S. Machado às 13:25

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