Vox Patriae

Abril 25 2010

A convite da Rádio Azul, de Setúbal, participei num debate sobre o 25 de Abril, desde as 00.00 deste dia feriado até às 3 da manhã! Foi uma experiêcia engraçada, a da rádio, realidade que me era distante, mas que gostei muito de conhecer.

 

Num painel maioritariamente composto por homens de esquerda, presos políticos e até um membro do Comité Central do PCP, a minha perspectiva foi, necessariamente, a de alguém que não viveu o 25 de Abril de 1974 e que, nesse sentido, reconhecendo o significado da revolução procura estabelecer pontes entre a realidade de 1974 e a de hoje, com especial preocupação com os novos desafios para a Democracia portuguesa, no início do séc. XXI.

 

Voltaire dizia: "Um dia tudo será excelente, eis a nossa esperança; hoje tudo corre pelo melhor, eis a nossa ilusão". Penso que esta frase resume muito bem aquilo que Abril de 74 significou e significa hoje... A revolução trouxe uma enorme esperança, mas o facto é que 36 anos depois há graves problemas que permanecem e muitos outros que foram surgindo.

Desde logo, temos uma Constituição desactualizada em determinadas áreas, demasiado extensa e com uma marca ideológica, e se é verdade que não há um problema constitucional em Portugal, também é verdade que esta Assembleia da República tem poderes de revisão constitucional e há que acorrer às novas realidades e aos novos desafios que se colocam ao país. Rever a Constituição não é arma de combate à crise e aos muitos e graves problemas do país, mas não é uma questão menor.

A Justiça é um problema sério, seja pela sua morosidade, seja pela crescente descredibilização do poder judicial; A Saúde continua a estar longe de ser motivo de orgulho, com um Serviço Nacional de Saúde falido; A Segurança Social está em risco e as gerações mais jovens olham com desconfiança para o futuro; A criminalidade conhece níveis preocupantes; o desemprego é um flagelo que atinge mais de 700 mil portugueses!

Nisto tudo, a credibilidade das instituições, nomeadamente de órgãos de soberania também está na ordem do dia. A corrupção é um dos maiores cancros do país e até o Primeiro-Ministro é alvo de suspeitas que diminuem a sua autoridade política.

A liberdade de expressão e de imprensa, conquistada em Abril, existe, mas está doente... Doença cujos sintomas são suspeitas de promiscuidade entre poder político e comunicação social; identificação de pessoas em manifestações; e mesmo quase perseguições a jornalistas mais "incómodos".

O importante valor-espírito da participação que Abril motivou foi-se perdendo ao longo dos anos, entre o aumento da abstenção (que nas eleições europeias tem valores escandalosos) e mesmo a fraca participação das pessoas na sociedade civil. Destaquei, no debate, a questão da participação cívica dos jovens, que não tendo vivido o 25 de Abril de 74, têm essa cultura de participação, se bem que adormecida: basta criar mecanismos de participação e, segundo a minha experiência, há sempre alguém a querer intervir.

 

Em suma, se há muitas batalhas vencidas, muitas continuam a ser travadas e hoje há importantes desafios que requerem um espírito de mobilização como o que se verificou em 1974: Hoje, os jovens não enfrentam o flagelo da guerra, mas enfrentam a incerteza no seu futuro profissional; hoje, há liberdade de expressão, mas a luta da liberdade é constante e garantir a independência efectiva da comunicação social é algo que continua na ordem do dia; hoje, há mais mecanismos de participação dos cidadãos, mas importa dinamizar uma sociedade civil adormecida e valorizar as iniciativas de grupos de cidadãos, tantas vezes postas de lado pelo poder político partidarizado.

 

Por fim, a mensagem que quis deixar no debate e a que, nesta efeméride me parece mais importante salientar, é que mais que celebrar Abril é preciso concretizar o espírito de intervenção e mobilização nacional, de todos (mais jovens e mais velhos), desta feita não contra algo mas por algo: um algo que não é uma qualquer coisa... Hoje, por imperativo dos tempos, é fundamental mobilizar pela mais nobre das causas, a causa nacional. É preciso mobilizar os portugueses para mobilizar o país, para mobilizar Portugal!

 

Nota: Referi, na Rádio Azul, a importância tantas vezes esquecida do General António de Spínola. Pela sua actuação política antes de Abril de 1974 (nomeadamente com as suas assumidas posições políticas vertidas no livro "Portugal e o Futuro") e pelo seu papel na consolidação de um regime democrático, em tempos conturbados como foram os do PREC). Acho absurdo recordar os tempos de 74 a 76 e não relevar o papel desta personalidade, que será, porventura, o principal rosto instauração da democracia plena, numa época em que muito estava em risco. Tempos como os que foram vividos exigiam homens extraordinários, e Spínola foi, a meu ver, o maior deles.

publicado por André S. Machado às 22:09

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